Quintana, sempre Quintana!

Conheci alguns poemas de Mario Quintana na minha infância.  Não lembro exatamente quais deles, mas lembro que de cara “amei”. O interessante de Quintana é que, embora hoje eu veja como são profundos seus textos, ele consegue alcançar gente de qualquer idade pela simplicidade de muitos de seus poemas. Não essa simplicidade no sentido pueril das suas significações, mas na forma da escrita mesmo. Eu não sou nenhuma crítica literária, sou apenas uma pessoa que gosta de ler e fazer resenhas do que li. Não tenho condições nenhuma de falar sobre obras como as de Mario Quintana, tenho apenas condições de dizer que amo sua forma de escrever e amo demais muitos de seus poemas e textos em prosa.

Este ano reli “Esconderijos do Tempo” e relembrei muitos poemas que conheci no passado. Na semana passada concluí “A vaca e o hipogrifo”. Publicado pela primeira vez em 1977, é um livro repleto de poemas e crônicas tão cotidianas, tão gostosas de ler que a melhor leitura desses textos é tomando um cafezinho – e nada de pressa. É uma obra escrita para os amantes da leitura, que amam ler porque amam ler e ponto. Segundo livro lido do autor e mais uma vez minha admiração por ele. É por poemas como este aqui abaixo que não consigo parar de amar os textos do poeta:

“As mãos que dizem adeus são pássaros

Que vão morrendo lentamente” (Mario Quintana; A vaca e o hipogrifo, p.62)

Esse singelo poema me remeteu aos meus 7 anos de idade, quando passei uns dias de férias no sítio do meu avô e, na despedida, chorei horrores segurando uma margarida que ganhei da minha amiga. Fazia tempo que não lembrava daquela cena, mas Quintana me fez passar um filme na minha mente. Depois daquela despedida, nunca mais tive um período tão bom quanto aquele no sítio. Gosto muito do autor porque ele literalmente fala com o leitor, o leitor se identifica com ele e ele consegue passar sua mensagem, seja esta mais política, mais metafísica ou devaneios de pensamentos – de qualquer forma, política, metafísica e devaneios permeiam nosso dia-a-dia sempre, não é mesmo?

Antonio Carlos Secchin, que prefaciou o livro, afirma: “O tom [do livro] é informal, as palavras provêm do registro cotidiano, e a predominância da prosa sobre o verso poderia acentuar ainda mais um clima de descontraída interlocução com o leitor. Mas, sob tantos elementos que parecem sustentar uma prática ingênua ou espontânea da criação literária, subjaz um discreto experimentador de formas, tanto mais vigoroso quanto menos explícito: ‘Se alguém acha que estás escrevendo muito bem, desconfia... O crime perfeito não deixa vestígios’”, citando no final do parágrafo um poema de Mario Quintana.

Bem, concordo completamente com Secchin, mas obviamente não teria condições de escrever assim, fazendo essa análise. Sempre gostei muito de poemas. Quando era criança, tinha um caderninho de poemas que perdurou dos meus 10 aos 14 anos, mas voltei a mergulhar em grandes poetas agora, então perdoem essa blogueira “inocente” no grandioso mundo dos poemas.

“Mas, afinal, para que interpretar um poema? Um poema já é uma interpretação” (Mario Quintana; A vaca e o hipogrifo, p.71).

Recomendo “A vaca e o hipogrifo” para quem gosta muito de ler e pensar, e pensar muito!

“Convivência entre o poeta e o leitor, só no silêncio da leitura a sós. A sós, os dois. Isto é, livro e leitor. Este não quer saber de terceiros, não quer que interpretem, que cantem, que dancem um poema. O verdadeiro amador de poemas ama em silêncio...” (Mario Quintana; A vaca e o hipogrifo, p.169).

Ficha técnica

Obra: A vaca e o hipogrifo

Autor: Mario Quintana

Editora: Alfaguara

Páginas: 298

Ano:  publicação 1977, edição 2012

Preço na editora: R$ 47,90

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